domingo, 24 de fevereiro de 2013

Busca-se Contos

Aos que tiverem interesse em postar aqui o seu conto, ou até mesmo contos que achem pertinentes, podem enviar um comentário para este blog que com toda certeza será bem vindo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Moça Tecelã



"Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite.  E logo sentava-se ao tear.

          Linha clara, para começar o dia.  Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

          Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

          Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo.  Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido.  Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

          Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

          Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

          Nada lhe faltava.  Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas.  E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido.  Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete.  E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

          Tecer era tudo o que fazia.  Tecer era tudo o que queria fazer.

          Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

          Não esperou o dia seguinte.  Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado.  Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

          Nem precisou abrir.  O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

          Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

          E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu.  Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

          — Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher.  E parecia justo, agora que eram dois.  Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

          Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
     — Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou.  Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

          Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia.  Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

          Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
          — É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

          Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados.  Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

          E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros.  E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

         Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

          Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

          A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar.  Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas.  Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

          Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara.  E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte."




Marina Colassanti

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Contos de um Carnaval

Contos de .. Um Carnaval..





     Sugestões de músicas para o clima:

    (clic em cima da música e vá para o link)


Vermelho (7º parágrafo)


Vou de Vez (13º e 24º parágrafos)


É Hoje (17º Parágrafo)


Contos de um carnaval


Pereira era um rapaz de dezoito anos, apaixonado pela vida e pelas pessoas que viviam ao seu redor. Nasceu e foi criado numa pequena cidade do interior do Amazonas. Era também muito atento aos problemas do seu tempo chegando mesmo a ser um ativista de causas nobres por natureza. Não admitia o destrato e a falta de cortesia com as pessoas. Era um gentleman. Seu rosto era de beleza ímpar e simétrica. Nos seus olhos havia um desejo de vida que não se conseguia explicar, nem tampouco seus pensamentos. Talvez fosse assim por ter presenciado seu pai ser assassinado por seringueiros em plena floresta amazônica, ou mesmo por ter ouvido de sua mãe em toda a sua infância: seja íntegro. Seja fiel aos seus ideais

Embora alguns acontecimentos negativos tenham marcado a sua infância, Pereira tinha um grande sonho: conhecer o carnaval de Salvador. Mesmo parecendo contraditório esse desejo, já que havia nele sonhos maiores, como por exemplo, acabar com a extração exagerada e ilegal de látex, ele realmente amava a folia momesca baiana de maneira platônica. Como de tão longe ele conseguia vislumbrar uma cidade que mais parecia uma ideia fixa, que talvez só existisse nos seus sonhos? Não. Ele sabia que era um desejo consciente. Que as pessoas dali eram pessoas alegres e felizes, que a cidade era uma mistura real de etnias e culturas diversas, onde há o respeito pelo outro, pelo diferente.



Assim, no dia de seu aniversário quando completou a maioridade, ele partiu para a sua tão sonhada viagem, Salvador. Durante o seu voo,  vinham à cabeça imagens coloridas e de pessoas alegres e sorridentes. - Incrível!  Queria ter nascido em Salvador. Lá sim que as pessoas realmente são livres). - Falando alto, interrompendo assim seus pensamentos em cores.

Mal aterrissou na cidadecorreu logo para o telefone público para saber se o amigo ainda o esperava, já que seu voo tinha atrasado em duas horas. - Alô? ... Zé? Cheguei amigo... acabei de chegar. Onde você está?.. o quê?.... Ao olhar para trás, ele teve a agradável surpresa. Seu amigo Zé estava ali em pé a sua espera, sorridente e muito feliz pela chegada do amigo virtual. Sim, eles se conheceram pela internet através de uma rede social. Os dois ficaram ali se olhando por alguns segundos que pareciam horas, naquele momento eles se compreenderam por completo, como se já fossem amigos da infância. Palavras ali já não eram necessárias, seriam excessos.


Seguiram para o estacionamento e então Zé disse para ele que tinha uma surpresa. Pereira ficou logo ansioso e perguntou se ali ainda cabia outra, pois para ele o seu amigo já estaria no circuito do carnaval há pelo menos duas horas. Os dois riram sem parar, mas Zé continuou: - Não Pereira, é isso aqui - e então tirou da sacolinha um abadá de um grande bloco. - É seu! - Pereira, nesse momento, ficou sem palavras, não sabia o que dizer. Algo desconfortável se instalou naquele momento. Ele pegou a camisa, olhou-a...olhou-a...  e buscando uma forma delicada disse para o amigo: - Zé, … olha,... eu fiquei muito feliz. .... muito feliz mesmo, mas... sair em bloco não estava nos meus planos, amigo”. Pereira realmente não queria sair em bloco. Ele queria ser livre como os baianos. Queria correr atrás dos trios. Queria andar livremente. Conhecer todas as tribos. - Definitivamente, ele não queria ficar preso a blocos ou camarotes. - ôxe! Mas .. Pereira é a Banda Tribo Verde!. ..Que você ama cara! - Disse o amigo um tanto decepcionado. - Me perdoa, meu amigo. Na minha terra tem o Carnaboi e nós brincamos livremente, à vontade. Você me entende?- Zé passou a entender o amigo naquele momento, e depois de um tempo em silêncio disse: - você tem razão!.. também não quero mais sair em bloco.- Pela janela do carro eles avistam um homem que varria a rua, o chamam e  perguntam se ele brinca o carnaval, e o mesmo responde que ali não era coisa para ele não.-  É para quem tem “bucha”. - Os dois riram e insistiram perguntando ao homem se ele não queria brincar o carnaval em um bloco ao mesmo tempo em que mostram o abadá para ele. - vixe! disse o homem. - isso é coisa fina. Não é pra mim não! Se eu entrar ali vão achar que sou ladrão ou que roubei de alguém.” - Que nada! - disse Zé. - Qualquer coisa mostra a nota da compra aqui ó - tirando do bolso o recibo de compra. - ah sim, leve sua esposa também .. ou a namorada E lhe entrega o outro abadá. O homem, feliz da vida, lhe agradece com um olhar terno mas, ainda assim, pergunta para eles: - E por que vocês não vão brincar?  Pereira responde: - Quero é viver nesse carnaval!!. Então, eles se retiram no carro até que Pereira se pergunta: - como ele vai brincar o carnaval provavelmente sem dinheiro?! Os dois se olham após essa reflexão, e então dão marcha à ré e entregam para o varredor R$ 50,00. - Para você se divertir, tá bem?! O homem, mais uma vez, fica sensibilizado com aquele gesto tão bondoso feito por dois jovens que naquela idade deles poderiam estar preocupados mais com a folia do que com um simples gari que todos os dias tem a sua presença abstraída por centenas de pessoas que passam por ele.


Seguiram os dois então diretamente para o circuito Barra/Ondina sem nem mesmo passar pela casa do amigo baiano. Pereira trocou de roupa ali mesmo dentro do carro, tirou a calça e a camisa revelando um corpo escultural e vestiu um short verde, cor, inclusive, que era a paixão dele, provavelmente, pelo contato com o verde da mata que permeou toda a sua vida. Cantava em voz alta uma música da sua terra, trocando a palavra “vermelho” por “verde” da letra. Chegando ao circuito, de cara, ele avistou um trio. Logo saiu correndo atrás, abraçando a todos que esbarravam nele, pedindo desculpas e indo na direção em que o trio seguia.


Próximo ao final do percurso no bairro de Ondina, os dois, já exaustos, param para beber um açaí, pois cerveja não era a bebida deles. Foram então caminhando em direção à praia com muita dificuldade de cruzar a rua, já que um bloco afro se aproximava dali, e então os dois passaram a dançar no ritmo dos tambores que ali ecoavam. Por fim, conseguiram chegar à areia daquela praia onde vários casais se enamoravam com um frenesi de deixar Eros derreter de febre. Procuraram um lugar mais próximo da beira da praia, sentaram-se e passaram a contemplar as estrelas e o mar ao som dos trios que vinham de longe.


Após um longo período de contemplação, Zé olhou nos olhos de Pereira e perguntou para ele se havia alguma coisa que ele queria dizer, mas que estava sem saber como começar. Pereira, nesse momento o olhou fixamente, ficou um tempo em silêncio... após o vazio, ele olhou para o céu e disse apontando para cima: - tá vendo ali o Cruzeiro do Sul? Mais para a esquerda, ali naquela direção, está a estrela que representa meu Estado.... Passei toda minha vida olhando para ela..- Neste momento, ele não segura a emoção e passa a relatar o ocorrido com seu pai. - eu tinha 11 anos, era noite de lua cheia quando estávamos, eu, minha mãe e meu pai sentados à beira do rio olhando as estrelas e meu velho me explicava tudo sobre elas. Ele tinha uma predileção por essa estrela, a Procyon, a mais brilhante da Constelação de Cão Menor.


Zé ouvia atentamente o que seu amigo relatava, estava completamente envolvido naquela história que prometia ter um final trágico diante da profunda tristeza com que era contada pelo seu narrador. Pereira estava mergulhado em lembranças de um passado que não estava tão longe, pois tinham passado sete anos, desde o ocorrido, e suas lembranças eram muito detalhadas ao ponto de os sons dos trios se transformarem em sons de insetos e barulho de água de rios. As cores das luzes e dos holofotes vindos de trás dos camarotes se transformavam estranhamente em vaga-lumes e insetos que brilham ao voar. Aquelas estrelas da música automaticamente perdiam o brilho para as estrelas agora daquele céu de Tefé, sua cidade natal.


Então Pereira continuava a narrar aquele fato que cada vez mais o deixava triste, a reviver a história como se ela estivesse ali acontecendo, naquele momento.
- Ele era o defensor da floresta e das seringueiras... As minas do “Ouro branco” que eram cobiçadas por todos os ambiciosos fazendeiros de lá, os “Caboclos Ruins”. O meu pai tinha uma grande preocupação com as árvores de Caucho, elas produzem um tipo de látex que nosso povo utiliza para a fabricação de produtos de uso próprio ou para o escambo nas feiras. Não tinha valor comercial para as grandes indústrias. Foi dessa forma que ele adquiriu uma legião de inimigos na região, pois nas feiras subia em caixotes e ali fazia as denúncias das derrubadas das árvores para dar lugar às outras com maior interesse comercial. Meu pai colecionou de verdade muitos inimigos durante alguns anos... Você sabia que aqui em sua terra também houve a exploração de seringueiras? - Perguntou Pereira olhando subitamente para Zé que estava muito compenetrado ouvindo aquela história, que a cada momento ia despertando mais o seu interesse. - Não! - Respondeu ele balançando ao mesmo tempo a cabeça que concordava com a sua resposta negativa. - Pois é.. Meu pai me contava que o governo daqui trouxe para cá no século passado essa forma de extrativismo, assim como alguns outros estados como São Paulo.


Zé estava muito curioso e preocupado com o desfecho da história que seu amigo lhe relatava e então no ímpeto ele pergunta: - E então, seu pai? Pereira aponta para o céu e mostra uma luz movimentando-se. Olha que lindo! No céu da minha terra vemos essas estrelas bem mais próximas de nós. .... (acendendo e tragando um cigarro de palha) meu pai... ele estava ali junto com a gente alegre e falando sobre a natureza, coisa que era comum, e a gente gostava muito de ouvir aquelas coisas. Ele ensinava o respeito que deveríamos ter com cada coisa que brotava do chão, ele dizia sempre que ali era o presente que Deus mandava através da mãe terra, e que deveríamos cuidar dele. De repente, apareceu do outro lado da nossa porta do fundo um homem com um chapéu muito grande, era um “regatão”! Zé interrompendo ele, pergunta: Mas o que é um regatão? Pereira - é um comerciante que sai nos barcos descendo rio abaixo trocando mercadorias por borracha. O problema deles é que eles vendem suas mercadorias como, alimentos, bebidas e redes por um preço exorbitante e recebem a borracha por um preço absurdamente baixo. Meu pai não aceitava aquilo e incentivava a todos a não trocar suas mercadorias daquela forma... Pois ali, agora, estava um em frente da gente, o que o separava de nós era um riacho que passava no meio. Quando meu pai o avistou logo pressentiu o perigo e rapidamente pediu para que a gente entrasse e foi em direção do homem. Minha mãe viu de longe uma faca que ele trazia escondida na parte anterior do antebraço, e então ela gritava meu pai pedindo que ele não fosse, mas meu pai não acreditava na maldade extrema humana e foi ao encontro de seu algoz. - Pereira nesse momento engasga e por alguns instantes chora desesperadamente recebendo então o conforto do ombro de seu amigo que também ali já tinha os olhos completamente irrigados de lágrimas. Calma, calma.. Dizia o amigo solidário àquela dor. Os dois se mantêm abraçados por um longo período.


Depois de algum tempo os dois já refeitos daquele sofrimento, se apartam um tanto constrangidos daquele abraço prolongado.-  Bom... é hora de ser feliz né? Disse Pereira levantando-se e dando a mão para que o amigo também se erguesse. - Olha! Escuta o som... é sua banda preferida! - Com muita felicidade falava o Zé. É justamente a Banda Tribo Verde, Pereira. Vamos! Verdade Zé.. essa música era muito tocada há sete anos lá em minha terra.
E então os dois saíram pelo meio do povo pulando e cantando a música que vinha de longe de cima do trio, afinal era a banda preferida dele, que provavelmente o incentivou muito a ida dele ao carnaval baiano, e então os dois seguiam ao seu encontro. No rosto de Pereira aquela tristeza, que há pouco existia, parecia nunca ter de fato existido. Aquele momento era transformador em sua vida. Parecia então que não haveria mais tristeza, que o carnaval iria levar todas as lembranças negativas do passado, embora junto com a chuva forte que naquele momento começava a cair em cima dos foliões - que também não davam importância para ela, aliás, eles queriam era muito mais pois só assim aquele calor que certamente ultrapassava os 40°C -, iria aliviar o sufoco daqueles corpos suados e colados uns aos outros que pela falta de espaço pareciam formar um único corpo.


Para Pereira e Zé tudo era muito bom, eles estavam juntos e curtindo aquele carnaval que iria marcar suas mentes para sempre. Era o carnaval da maioridade de Pereira e sua primeira vez. Sim, era sua primeira vez! Do ponto de vista de Pereira aquela chuva que batia em seu rosto lhe chegava como serpentinas. Para Zé, era tudo purpurina, era tudo brilho. Seus olhos, assim como a chuva, também brilhavam ao sentir o brilho nos olhos de seu amigo. Ele, no fundo, se sentia orgulhoso de poder proporcionar, de certa forma, aquela felicidade verdadeira para o Pereira. Foi Zé que o convidou para isso, desde sempre. Foi ele quem mandava notícias das coisas da terrinha, incentivando e ativando o desejo do parceiro em conhecer, de fato, aquele lugar. E agora tudo se realizava ali em sua frente.


Os dois continuavam a seguir ao encontro da banda preferida. Juntos formavam a verdadeira cara do folião brasileiro: Os Zés-Pereiras. E assim eles gostavam de ser chamados pelas pessoas que iam conhecendo pelas ruas do circuito do carnaval baiano. Eles já se sentiam um só. Eles juntos eram o verdadeiro “Zé Pereira”.


Inacreditavelmente, eles conseguiram finalmente chegar no Farol da Barra onde sua banda preferida estava iniciando o seu desfile, era a Tribo Verde, a melhor banda do carnaval baiano para Pereira, ela era tudo de bom, pois trazia em suas letras mensagens positivas, de respeito a liberdade e igualdade e à natureza. Eles comungavam dos mesmos princípios. A felicidade de Pereira era assustadoramente incontrolável, tanto que seu amigo, o tempo todo, o protegia da multidão, para que ele não fosse esmagado pelo povo, pois ele gritava, pulava e cantava as músicas como um verdadeiro fã, ou mais que fã. Ele nutria uma devoção muito grande pela banda como se fosse uma religião e ele um seguidor fiel. Embora a alegria dele ao ver outras bandas fosse grande, nada se comparava àquela agora.


O tumulto era grande, o som era estridente que ensurdecia qualquer mau ouvinte. As pessoas não se comportavam bem no trajeto, elas se empurravam com exageros.Começava ali a se estabelecer um clima tenso onde a pancadaria já era evidente, pois os cordeiros daquele bloco se comportavam muito mal, eram muito agressivos e violentos com o folião-pipoca, como se o espaço da avenida tivesse sido alugado para eles passarem, sem a presença de mais ninguém, senão os integrantes do cordão. Nesse momento, Pereira é empurrado por um dos cordeiros de uma maneira tão bruta que o mesmo cai no chão, levando antes com ele um isopor de cervejas que estava atrás de si. Pereira caído é imediatamente socorrido pelo fiel amigo, que desesperado começa a discutir com o autor de tamanha agressão. E o mesmo agressor reagiu com soco em seu rosto. A confusão passou a ser generalizada. O cordeiro fugiu para outro lado do bloco, deixando para trás a confusão provocada por ele. O cantor, ao perceber lá de cima a confusão, parou o som e começou a pedir a presença da polícia ali para resolver a confusão, pois segundo ele, os seus integrantes não podiam passar por aquilo, já que estavam dentro do bloco e deveria haver a segurança máxima. - Não é possível! Dizia ele do alto do trio, em seu microfone, que até momentos antes pregava a igualdade e o respeito pelo outro. - Como esses cidadãos... se é que são cidadãos né?! Podem vir para a cidade para destruir a paz e alegria do outro?! - A polícia nesse momento chega com uma tropa de homens com caras nada agradáveis de se ver, e o cantor continua: - policial! Policial! Olha, aquele ali já está desde o início criando problemas. Eu mesmo avistei ele de longe pulando de maneira agressiva, batendo nos outros com seus cotovelos! - E então ele aponta para o Pereira que acabava de se recompor da queda. O mesmo sem acreditar no que via, dizia apontando para si:-  Eu?! Olhando para os lados para ver se não era outra pessoa. E o cantor continuava  - Esse aí mesmo! É um baderneiro. Prende esse cara por favor! - A polícia avança em direção do rapaz para prendê-lo e o mesmo se recusa, assim como seu amigo indignado, toma a sua frente e gritava que não era ele. Que ele era um folião e fã da banda. Jamais um baderneiro. A polícia com a ira incontrolável, batia muito em Pereira e em Zé com cassetetes e socos. O mesmo não conseguia se desvencilhar das pancadas. Eram muitos homens espancando dois infelizes rapazes, que, mesmo imobilizados e algemados, ainda assim, apanhavam muito, ao tempo em que eram levados na fila dos policiais. As pessoas ficaram revoltadas com aquilo, mas nada podiam fazer, pois se sentiam impotentes diante daquela força policial.


Enquanto os dois amigos eram levados na fila dos policiais, aparecem, na frente do bloco, um homem com sua parceira vestidos com o abadá do bloco brincando alegres e felizes. Ele, ao avistar aqueles dois nas mãos dos policiais, sai correndo atrás, gritando: - Parceiros! Parceiros! O que aconteceu?! A polícia empurra o homem.-  Sai, (aos berros) eles estavam era tentando acabar com a alegria de todos, inclusive a sua que ta aí agora tentando defender os bandidos! Sai!


O homem não sabia de fato o que acontecera, mas tinha a certeza - assim como tinha que estava vivo - de que aqueles dois eram inocentes. Para! Esses meninos aí são gente do bem. Argumentava o homem sem sucesso. Eles que me deram o abadá do bloco e pra minha esposa também, mostrando a mulher e tirando o chapéu. Pereira e Zé o olham e lembram do homem no aeroporto, mas a dor física naquele momento era muito forte e os mesmos já não conseguiam mais concatenar as ideias.


Os dois continuam sendo puxados pelas algemas por policiais que não demonstravam nenhum interesse em facilitar as coisas para os dois. Ao olhar para um dos lados em que seguiam, Pereira vê ali a possibilidade de fugir daquela tormenta que o deixava cada vez mais debilitado e então num ato insano ele consegue correr fugindo assim dos policiais que, imediatamente, correm em busca do mesmo. A perseguição é implacável, e cansado Pereira sucumbe ao chão e é encontrado por um dos policiais que ali mesmo aponta uma arma para ele. Ali no chão já com a visão confusa, ele fala para o policial:-  Ô moço, não fiz nada, apenas queria ver a minha banda favorita. A Tribo Verde. Só isso... .tenho certeza que o senhor não é assassino moço. O policial ainda ofegante da corrida, sem pena diz para ele; - Assassino não é quem puxa o gatilho, é quem provoca sua morte. Você foi quem se matou. - E então dispara um tiro na cabeça de Pereira. Foi uma explosão naquele momento de sonhos, planos, felicidade, retidão e frustração. Sim, nos seus olhos nos últimos piscares havia a decepção e frustração de um jovem que queria apenas amar as pessoas e fazê-las felizes. Nesse momento seu coração de verde passou a vermelho da cor do sangue que escorria por entre seus olhos. Doce triste jovem! Que destino perverso que o levou a findar-se pela exacerbação da alegria que ainda ali continha.


O gari chega nesse momento com a nota fiscal do bloco nas mãos, para mostrar ao policial, mas nada mais consegue fazer, a não ser cair ao lado do corpo do jovem que estava ali abandonado pelo policial mal-feitor. Ajoelhado com muitas lágrimas nos olhos ele diz: ele só queria era viver nesse carnaval......

A partir disso não quis mais saber de carnaval em Salvador. Fui para Tefé e passei a morar com os familiares de Pereira que agora são meus também. Hoje me chamam de Zé Pereira em homenagem ao meu amigo Zé e também uma referência à alegria dele com o carnaval. Decidi após dezoito anos voltar para rever as pessoas que deixei por aqui. É carnaval na cidade e as lembranças são muito fortes. Não sei se estou preparado, mas preciso vivenciar isso para exorcizar esse grande trauma em minha vida.

Ao chegar no estacionamento do aeroporto avistei um rapaz ao telefone público com as características físicas idênticas às de Pereira . imediatamente corri e o abordei, o rapaz virou-se de frente para mim e logo percebi o engano da minha mente. O rapaz ao me olhar responde: - Olá, tudo bem? Veio passar o carnaval aqui? - Eu sem graça pela minha estúpida abordagem respondi: - Sim, eu estava esperando um amigo e pensei que ... - O rapaz responde:- Engraçado.. eu também estava esperando aqui um amigo de Manaus mas ele parece que não veio nesse voo. Os dois riem muito e apertam as mãos.


Fim.






Nildson B. Veloso
Revisão: Geraldo e Isadora Seara



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Este blog é dedicado à leitura de contos que de alguma forma nos façam refletir sobre as coisas do mundo. Estes contos aqui postados são de ficção e não têm relação com pessoas ou fatos reais.